BRASIL

27/10/2018 as 17:03

Pérolas Escondidas na Programação da 42ª Mostra de Cinema de São Paulo


Suyene Correia - Cinéfilos e afins

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Em toda Mostra de Cinema é assim. Há filmes imperdíveis, por conta dos prêmios recebidos em Festivais Internacionais ou pelos nomes tarimbados que assinam a direção. Mas há também aqueles que podem passar desapercebidos, diluídos na imensa lista de títulos da programação, sendo verdadeiras pérolas escondidas. É o caso da produção alemã “3 Dias Em Quiberon” e a sul-coreana “A Última Criança”.

 "3 Dias Em Quiberon": Emily Atef ficcionaliza a última entrevista  concedida por Romy Schneider

3 Dias Em Quiberon”,  da diretora alemã Emily Atef, é uma ficção que faz um recorte da vida de Romy Schneider(1938-1982), justamente, da época em que estava hospedada num centro de desintoxicação, na comuna de Quiberon, região da Bretanha (França). Era abril de 1981, e a atriz austríaca, recém-divorciada do segundo marido Daniel Biasini e ainda abalada com o suicídio do primeiro companheiro, Harry Meyen, dois anos antes,  lutava contra a dependência do álcool e de medicamentos, a fim de poder criar os filhos David Christopher e Sarah MagdalenaBiasini, então com 13 e 4 anos de idade. 

 

A batalha não é fácil e a amiga Hilde (Birgit Minichmayr) sabendo disso, decide ir ao encontro de Romy (Marie Bäumer) em Quiberon, para lhe dar apoio. Quando a paz começa a tomar conta do coração da atriz, chega a dupla de jornalistas Michael Jürgs (Robert Gwisdek) e Robert Lebeck (Charly Hübner), esse último, antigo amante de Schneider. Eles pretendem, durante três dias, entrevistar e realizar uma série de fotos de Romy Schneider, a fim de publicar uma matéria na revista semanal alemã Stern.

 

Mesmo atravessando um período difícil (com problemas financeiros, inclusive), Romy não se furta de falar o que pensa, desnudando-se por completo, ao revelar suas fragilidades, as dificuldades em lidar com a fama (sobretudo pelo fato das pessoas confundirem a personagem Sissi com  a mulher Romy Schneider) e ser mãe ao mesmo tempo. A partir daí, o jogo que se estabelece entre os quatro personagens é muito interessante. Se a princípio, Hilde vê com desconfiança as intenções por trás do trabalho de Jürgs, por outro lado, Romy acredita que nada vai sair errado, por conta do amigo Lebeck.

 

À medida que a entrevista vai fluindo, Hilde tenta proteger a amiga de uma possível armadilha, porém movida pela bebida, Romy deixa-se levar pela emoção e revela-se como nunca, fazendo com que o próprio Michael Jürgs, a partir dessa entrega da atriz, repense sobre o uso do conteúdo jornalístico adquirido em Quiberon. Afinal de contas, o que Schneider almeja é sua liberdade. A possibilidade de ser "ela mesma" e a dupla da Stern respeitará sua escolha.

 

Ainda que Sarah Magdalena, a filha de Romy Schneider,não tenha aprovado a maneira como a mãe foi retratada em “3 Dias Em Quiberon, o filme tem muitos méritos. O elenco é coeso, mas quem rouba a cena é Marie Baümer, que a despeito da enorme semelhança física com Schneider, é uma atriz de excelência;  a fotografia em preto e branco é deslumbrante e reproduz, fielmente, a atmosfera melancólica do lugar e o estado de espírito de Romy, captada na época, pelas lentes de Robert Lebeck (o ensaio original contou com cerca de 600 fotos); a diretora demonstra mais uma vez, total domínio de dramaturgia, além de dirigir atrizes cujas personagens sempre estão em situação bastante conflitante (a exemplo de "O Estranho em Mim" (2008) e "Kill Me" (2012)).

 

No filme de Atef, a “eterna” Sissi mostra-se desprovida de máscaras, por vezes, eufórica, outras, melancólica, mais humana do que mítica. A mulher que, quase um ano depois, não resistiria à morte trágica do filho, e morreria precocemente, aos 43 anos.

 

Estreia Perfeita

 

Apesar de ser o primeiro longa-metragem de Shi Dong-seok, “A Última Criança” funciona por três razões básicas: um roteiro bem estruturado, o elenco afiado e a direção precisa de Dong-seok. No cerne da questão, o casal Sungcheol (Choi Moo-seong) e Misook (Kim Yeo-jin) tenta lidar com a perda do filho, Euchan, que morreu afogado há seis meses, após  salvar a vida do jovem Kihyun (Seong Yu-bin).

 

"A Última Criança": Filme de estreia de Shin Dong-seok aborda questão do luto

Ao mesmo tempo, alvo de perseguição por alguns colegas, Kihyun deixa de frequentar a escola, começa a trabalhar  numa casa de fast food e após um problema com o patrão, pede ajuda a Sungcheol, proprietário de uma loja de decoração. O homem não hesita em ensinar ao garoto seu ofício de colocar papel de parede e o incentiva a se profissionalizar. Não tarda, Misook se aproxima de Kihyun e, ambos, afeiçoam-se por ele, numa tentativa de preenchimento do vazio afetivo. 

 

Mas nem tudo é o que parece. Ao mesmo tempo em que Euchan é homenageado como herói na pequena cidade que vivia e os pais doam a vultosa indenização para a escola em que o filho estudava, uma nova versão do fato surge, confrontando com a "verdade". No mesmo instante em que  os pais de Euchan se desestabilizam com a novidade, a plateia se estremece na poltrona.

 

Se num primeiro momento, o efeito de identificação com a nova família que está por se formar, dá-se pela sutileza dos gestos, olhares e sentimentos contidos dos personagens (mérito dos atores), no momento seguinte, há uma dilaceração desses arranjos afetuosos, fazendo com que a reação de Sungcheol e Misook, de início díspare, convirja para uma mesma solução.

 

A favor de “A Última Criança”, o tempo, milimetricamente, ajustado das ações; a astúcia com que Dong-seok elaborou o roteiro; o domínio cênico dos atores Moo-seong, Yeo-jin e Yu-bin. Contra, o tempo que esperamos pelo clímax. 


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