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20/10/2018 as 10:05

“A Favorita” e “A Casa que Jack Construiu” são destaques na Mostra de Cinema de SP


Suyene Correia - Cinéfilos e afins

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Divulgação/ Christian Geisnaes<?php echo $paginatitulo ?>

Dos nove filmes que assisti, nesses dois primeiros dias de 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, destaco “A Favorita” de Yorgos Lanthimos e “A Casa que Jack Construiu” de Lars Von Trier.

Em “A Favorita”, o diretor grego aposta num drama épico com pitadas de humor, bem mais palatável que seus filmes anteriores “O Lagosta” (2015) e “O Sacrifício” (2017). Ambientado na Inglaterra do início do século XVIII, a produção suntuosa explora o jogo de poder nos bastidores da realeza, ao mesmo tempo que se detém no envolvimento de três personagens femininas bem peculiares: a Rainha Anne (Olivia Colman), sua amante a Duquesa de Marlborough (Rachel Weisz) e Abigail Marsham (Emma Stone).

A atriz Rachel Weisz interpreta a Duquesa de Marlborough em "A Favorita" 

O roteiro assinado por Deborah Davis e Tony McNamara, no entanto, usa a política como pano de fundo, concentrando-se nas relações interpessoais, sobretudo, entre as personagens femininas (a trinca de atrizes receberá um prêmio especial no Gotham Awards, dia 26 de novembro), onde Sarah e Abigail disputam a preferência de Anne- uma mulher doente e inapta para comandar um reino- na esperança de ascenderem políticaou socialmente.

Ainda que o elenco conte com coadjuvantes masculinos competentes como Nicholas Hoult (Robert Harley) e Mark Gattis (John Churchill), quem brilha mesmo são as mulheres, com Emma Stone mostrando maturidade a cada novo papel, Rachel Weisz corroborando seu talento e versatilidade e Olivia Colman que demonstra aqui, o que podemos esperar de sua performance como a Rainha Elizabeth II, na terceira temporada de "The Crown".

É um filme de atuações, pois nada há de novo nas artimanhas e manobras utilizadas pelos políticos, a fim de alcançarem um lugar de status. A história, porém, é bem narrada e o grande diferencial está na complexidade das personagens. Há de se destacar  a direção de arte caprichosa de Fiona Crombie e a direção de fotografia de Robbie Ryan. Este último explora bem a luz natural tanto nos espaços ao ar livre, como nos cômodos do palácio (a locação utilizada foi a Hatfield House, em Hertforshire, na Inglaterra), não se descuidando de compor belos contrastes entre luz e sombra, nas cenas noturnas.

Talvez, o pequeno senão do trabalho de Ryan, seja o uso quase que contínuo de lentes grande-angulares (distorcendo os ambientes, principalmente, nas laterais da tela) e o excesso de planos  em contra-plongée. De qualquer modo, "A Favorita", é um filme correto no conteúdo, exuberante na forma e que já nasce com grandes chances de  arrebatar estatuetas douradas na festa de entrega do Oscar 2019. É aguardar para ver!!

Depois de Lanthimos, Lars Von Trier. O que dizer de "A Casa Que Jack Construiu?" Provavelmente, o filme em que o diretor dinamarquês destila o seu cinismo de forma mais contundente, chegando a criticar a inoperância do Estado e a conivência da sociedade, a partir do modus operandi do engenheiro e serial killer, Jack, interpretado pelo inexpressivo Matt Dillon (com a mesma cara talhada de "Drugstore Cowboy" (1989), só que mais enrugada).

Matt Dillon volta às telas como protagonista de "A Casa Que Jack Construiu"

Durante 12 anos, Jack matou algumas dezenas de pessoas, sem deixar vestígio algum. Enquanto ele conta suas peripécias sanguinárias para o misterioso Virgílio (Bruno Ganz), vamos nos familiarizando com suas obsessões, pulsões, habilidades e fraquezas. Em cada um dos cinco capítulos (nomeados de "incidentes") em que a história é dividida, vemos Jack abordar suas vítimas de forma cada vez mais ousada, testando os limites de sua sorte, na intenção de não ser descoberto pelas autoridades policiais. 

Enquanto vai descrevendo suas perversões, Jack não deixa de delinear sua personalidade macabra (revelando experiências vividas na infância) e seu gosto pela arte (discute com Virgílio sobre arquitetura, pintura e música como poucos). Querendo ser um virtuose na "arte de matar", Jack vai aprimorando sua técnica. Seus requintes de crueldade vão se intensificando, mas em compensação, sua mente, cada vez mais doentia, deixa brechas para a atuação da polícia e uma possível captura.

Nesse ponto, a trama já adentrou no epílogo e saberemos qual o destino do labirinto escuro que Jack e Virgílio estão percorrendo. A partir daqui, Lars Von Trier patina em terreno escorregadio, equilibrando-se, vez por outra (a exemplo de quando mostra a criação dos mitos pela sociedade) e caindo de queixo no chão (quando faz autorreferência). 

Esperava filme mais indigesto (baseando-se na repercussão que o filme teve em Cannes), mas Von Trier opta em criar situações de carnificina tão patéticas, que não consegui levá-lo a sério. A exceção fica por conta do terceiro Incidente. Destoa do resto do filme, aproximando-se da realidade, mas sendo, desnecessariamente, apelativa. Von Trier só consegue nos impactar usando golpe baixo. Uma pena!!

Ainda que em "A Casa Que Jack Construiu" Lars Von Trier esteja longe de sua genialidade dos tempos de "Ondas do Destino", "Dançando no Escuro" e "O Anti-Cristo", aguarde o lançamento nacional previsto para o dia 1º de novembro. Com certeza, mais uma obra de Von Trier que dividirá opiniões.


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