BRASIL

23/10/2018 as 12:51

Notas Rápidas Sobre Filmes Imperdíveis


Suyene Correia - Cinéfilos e afins

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Arte/ Divulgação<?php echo $paginatitulo ?>

Nesses quatro primeiros dias de maratona cinematográfica, na Mostra Internacional de Cinema, alguns filmes já valeram a vinda a São Paulo. É o caso de “Em Chamas”, “O Homem Que Roubou Bansky”, “Culpa” e “Ága”.

 

“Em Chamas” é a mais nova produção do diretor sul-coreano Lee Chang-dong que há oito anos realizou o sublime “Poesia”. Dessa vez, o protagonista é o jovem Jong-soo (Yoo Ah-In), um assalariado, aspirante a escritor, que mora sozinho na cidade enquanto seu pai, um pequeno proprietário rural, vai a julgamento por ter agredido um funcionário público. Da mãe, ele não tem notícias há um bom tempo. Sua rotina é interrompida, quando se reencontra com uma amiga de infância, Hae-mi (JeonJong-Seo). Eles saem, conversam, transam e... Hae-mi o incumbe de cuidar do gato de estimação, enquanto ela vai passar uns dias na África.

"Em Chamas" baseia-se num conto de Haruki Murakami

Jong-soo está apaixonado e vai ao apartamento da amiga diariamente, alimentar o bichano “invisível”. Hae-mi, por sua vez, está em outra. Ela volta a Seul, acompanhado de um playboy, Ben (Steven Yeun) e, a partir daí, o filme parece enveredar pelo típico conflito de um triângulo amoroso, envolvendo disputas e ciúmes, entre as partesenvolvidas. Porém, em se tratando de uma história baseadanum conto de Haruki Murakami- “Queimar Celeiros”-  somos encaminhados para um outro lugar, ainda incerto. 

 

Os encontros dos três tornam-se frequentes. Jong-soo não quer ficar longe de sua amada; Hae-mi, apesar de não amar seu amigo, sente-se protegida por ele e Ben aparenta querer se divertir com a situação. Numa fortuita reunião, no sítio do pai de Jong-Soo, o ricaço misterioso revela seu hobby inusitado. Para completar, Hae-mi some sem deixar rastro. É o start para que Jong-Soo passe de uma atitude passiva para a ativa, tal qual de um detetive. 

 

Cabe a Lee Chang-dong, como de hábito, conduzir com maestria a jornada solitária dos personagens principais de suas narrativas bem urdidas. Aqui, ele dosa com inteligência a tensão que se instala na trama, por conta do contraponto que faz entre Soo (frágil, ingênuo, passivo) e Ben (misterioso, cínico, ardiloso). Tudo, milimetricamente, exposto, sem pressa, com suavidade, até alcançar o desfecho triunfal.

 

Quanto Vale a Arte de Rua ?

O documentário “O Homem Que Roubou Bansky” de Marco Proserpio adentra no mundo do mercado de arte, colocando no centro da discussão, o valor da arte de rua, o direito de propriedade dessa arte e a sua descontextualização quando levada para ser exposta em museus e galerias.

Proserpio parte do episódio ocorrido na Cisjordânia, envolvendo o taxista Walid, que descontente com um trabalho de Bansky em estêncil- “O Homem Pedindo a Carteira ao Burro”- extraiu parte da parede com a obra de rua, realizada em 2007, pelo artista inglês e decidiu vendê-la no eBay.

A partir dessa situação esdrúxula, o diretor não só entrevista personagens-chave dessa transação milionária, como segue o caminho percorrido pelo pedaço de concreto, nas principais galerias e casas de leilão. Filme obrigatório para se discutir com marchands, artistas, colecionadores e acadêmicos da área.

Nos Confins da Terra Gelada

"Ága" do búlgaro Milko Lazarov é um verdadeiro poema visual. A premissa é simples: um casal de esquimós- Nanook (Mikhail Aprosimov) e Sedna (FeodosiaIvanova)- vive isolado na terra gélida do extremo norte do Globo Terrestre e, agora, passa por dificuldades, devido à idade avançada, a escassez de alimentos, a morte inexplicável de alguns animais e o aquecimento global.

 

"Ága":  poema visual emocionante

Enquanto acompanhamos o cotidiano do casal, na sua rotina diária de sobrevivência, descobrimos o que, de fato, mais os incomoda: a filha Ága os abandonou, para estudar e trabalhar na cidade. Essa atitude de rompimento com a tradição de seu povo, fez com que Nanook a ignorasse, desde então. Porém, vários acontecimentos levam-no a repensar sua atitude até partir ao encontro da filha.

 

Muito mais do que a exuberância da brancura das terras gélidas do norte do planeta, captada pelas lentes do fotógrafo Kaloyan Bozhilov, o filme nos envolve pela naturalidade com que aborda temáticas como a ruptura dos jovens com a tradição dos antepassados; a relação do homem com seu habitat, do qual sobrevive; os impactos ao meio ambiente causados pela sociedade capitalista. Como se não bastasse, há uma entrega total dos atores, contribuindo para a imersão na história por parte do espectador.

 

Entre a Culpa e a Redenção

 

Imersão parece ser a palavra-chave de "Culpa", filme escolhido pela Dinamarca para brigar por uma vaga na categoria de Filme Estrangeiro no Oscar de 2019. O thriller ambientado na central de atendimento da polícia militar de Copenhague, acompanha as últimas horas de um turno de plantão do policial Asger Holm  (Jakob Cedergren). Num dado momento, ele atende a ligação de uma mulher Iben (voz de Jessica Dinnage) que parece estar sendo sequestrada pelo ex-marido, Johan Olsen (voz de Michael).

O policial Asger Holm  tenta solucionar um caso de sequestro no filme "Culpa".

A partir daí, Asger trava uma batalha contra o tempo para salvar a mulher e proteger os filhos dela, que estão sozinhos em casa. Porém, o genial da narrativa é que a tentativa de controlar a situação é toda feita através de ligações telefônicas, já que Asger Holm está afastado das ruas, depois de ter matado um jovem inocente. Aliás, ele deverá conduzir a situação com autocontrole, já que, no dia seguinte, passará por um julgamento, a fim de ser liberado para o trabalho externo novamente.

 

Não é comum vermos no cinema, preocupação com temas como o stress sofrido por policiais na ativa. O filme de Möller é certeiro nessa abordagem, fazendo-nos refletir sobre as condições de trabalho desses profissionais; o quanto eles são desassistidos por psicólogos ou psiquiatras; e como estamos protegidos com policiais nas circunstâncias em que se encontra Asger.

 

Seguindo a tradição de filmes de suspense dinamarqueses de excelência, a exemplo de "Sequestro" (2015) de Tobias Lindholm, "Culpa" faz jus a toda expectativa que se formou em torno dele nessa Mostra. O diretor GustavMöller demonstra total habilidade em conduzir a tensão cênica, a partir do uso inteligente de closes no rosto do ator Jakob Cedergren (excelente!) captando a cada avanço ou recuo na operação de resgate, o medo, a frustração, a ira e o desespero e, também, na forma como utiliza (ou não) o som, elemento primordial na concepção dessa película.

 

"Culpa" é uma verdadeira aula de cinema na sua essência: roteiro bem construído,  direção precisa, interpretações convincentes. É o que "Por Um Fio" do Joel Schumacher almejou e não conseguiu alcançar. 

 


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